Um dia você descobriu que as coisas não eram tão ruins. E por mais que procurasse, não encontrava motivos para chorar. Mesmo assim você me dizia que tudo tinha gosto de nada. Como viver com o que somos quando o que nos tornamos já não condiz com aquilo que sempre fomos? É melhor jogar fora um pedaço – aquele que não respira mais –, extirpar a maioria ou aceitar e fazer do todo um tudo? Você não é mais só um fragmento, mas também não é completa. É algo novo. Um novo que agora apresenta barreiras não impossíveis de serem transpostas, porque são reais. Existem. A realidade apresenta-se como novidade, novidade essa um tanto quanto desprovida de cores. Os desejos mais pungentes foram sempre resultado de alucinações profundas? E pra viver, é necessário delirar? Eu delirei tantas noites pensando em você. Como fazer para curar esse gosto amargo que morreu na tua boca se você não padece de mal nenhum? Vejo você atrás de outras doenças, mais terríveis e patológicas. Sempre imaginei que te entenderia em algum ponto da história e me sentiria leve, no mínimo leviano. O caso é que sou tomado por um torpor que não se vai. Parece que ele é o meu novo companheiro. Já não penso em compartilhar sentimentos. Sei de pessoas que enterram caixas com seus pertences juvenis em um buraco bem fundo no quintal de suas casas. Eu os levo dentro de mim ou seria dentro de você? [losif]
ㅤㅤㅤAcabo de conquistar o ápice da minha insanidade.
“Um monólogo de frases feitas”, quem sabe, ou talvez uma mera quimera enredada numa trama sem desfecho, pronta para saltar aos olhos de seu criador. Ou ainda, meio que inconsciente e tomada por uma ânsia pérfida, talvez não passe de uma figura das sombras, cujo objetivo é apenas alimentar-se de frustrações alheias, de sonhos inacabados, de semblantes tomados pela ira e pelo ódio, de cárceres mentais atormentados por espíritos agonizantes, e tantos outros conceitos facilmente distinguíveis pelas mais variadas mentes em transe. Sim, em transe. Eis um fato: Pessoas normais não enxergam. Uma vida tomada pelo ócio, por ódios que se multiplicam dia após dia, e por uma ânsia que não sei descrever. Uma apreensão desmedida, uma angústia estonteante, cercada de pensamentos difusos e muitas vezes putrefatos, de tão ruins e mesquinhos. Só não posso (ainda) comparar-me a um monstro. Não. Ainda me sobra a razão, me distinguindo dos demais. Uma razão que há pouco tempo vem me pregando peças, deixando-me alheio por muitas vezes à realidade onipresente, onisciente e onipotente.
ㅤㅤㅤMas, talvez a escolha seja minha por si só.
A cada vez que escuto palavras desconexas, pensamentos errôneos e ideias mirabolantes brotadas das mentes mais inutilizáveis, enveredo-me por caminhos interiores, que me conduzem a um ócio destrutivo, um mundo particular onde aqueles rostos iguais, aquelas ideias desprovidas de valor, aquelas futilidades em demasia, não existem. Um lugar só meu, onde descarrego tudo e mais um pouco. Um local reservado para as minhas torpezas, que me distinguem dos volúveis. Ali, onde sou capaz de me ater a mim mesmo, numa nesga de mesquinharia e ódio demasiadamente egoístas, permitindo-me contemplar por sobre o alto, aqueles seres completamente iguais e patéticos. O exemplo mais vivo da falta de racionalidade do próprio homem, tão pomposo e astuto a ponto de querer se diferenciar dos demais animais. Ali, onde guardo meus temores, minha falta de tato, minha falta de senso, minhas mais impuras e podres opiniões, que não ouso expô-las a ninguém. Ninguém. Nem mesmo às mentes mais igualáveis, ou quiçá semelhantes à minha. A carniça é podre demais para ser exposta. Resta-me apenas guardá-la num local que vai muito além de sete palmos abaixo do chão. Um local onde ninguém poderá encontrar, nem mesmo o mais sórdido ladrão: O meu mundo. [losif]
Esqueças as etiquetas e os protocolos. Esqueças das mágoas, do que seria legível e perdoado. Esqueças do que seria esquecível ao nosso ver e ao nosso viver. De todas as mágoas, de tudo o que é palpável e meticulosamente exigido. Eu sei que estou me repetindo, que você é alma de entender tudo no primeiro recado, mas os punhos cansam de ser o único nome repetido todas as vezes que você precisou no abaixo-assinado. Eu e meus medos. Eu e minhas preocupações. Todos os inimigos da sanidade dizendo baixo no meu ouvido para quebrar as correntes que me ligavam em você. Sussurros para o mundo, e gritos que sangravam dentro do meu cérebro tão danificado. Eu cansei da rotina de negação. Cansei de ter medo da televisão apagada porque o reflexo é sempre uma cama parcialmente vazia do lado que não deveria estar e um olhar perdido, com sintomas de frieza hereditária. Eu não gosto de surpresas, mas a dor não quer te anunciar. As lágrimas não querem descer e eu já não aguento mais essa sequência de invernos, esses livros na cabeça, esse excesso de compostura. A coluna sempre ereta, os pratos com porcelana mais apetitosa que qualquer comida, as gargalhadas baixas para que a solidão não se ofenda. Sinto-me dentro de um pequeno formigueiro, aproveitando do mais exemplar caso de esclavagismo animal. Sem socorro, fazendo meu trabalho. Bater o ponto e receber a recompensa ao fim do mês. Parece que aplaudem cada vez que tento abandonar a mim mesma e sair por aí vivendo sem o menor roteiro, completamente despudorada. É crime querer que você volte. Eu quero que saia do inferno e queime esse morno por dentro. Quero que você se lembre apenas dos meus dedos cruzados e esqueças qualquer promessa de infelicidade longe ao teu lado. Anos e anos de sigilo, horas e horas de tortura, peça nossos primeiros cinco minutos a mais. Se o que foi feito não pode jamais ser mudado, tente aprender a escrever nossa história em linhas verticais. Eu sempre achei o horizonte quadrado demais. Eu não me importo com tuas botas sujas de lama, com teus olhos manchados de calvário, com teus abraços de espinhos, com tuas besteiras e teus caprichos. Não me importo com outras bocas que repetem nossos horários. Esqueças as pernas cruzadas e os nós de gravata. Leve-me para qualquer canto que não a monotonia de ser um bom exemplo. Eu não quero seguir em frente essa noite se o nosso passado quiser seguir atrás. Alimentas meu sentimento mundano e na manhã seguinte, desapareças sem deixar bilhete para que eu enfim possa correr atrás de novos endereços com o pretexto de te encontrar escondido em algum medo próximo de mim. Eu quero você, com todos os seus atrasos e faltas. Só por hoje você diga que fica. Só quero hoje, porque o amanhã vale o castigo. Vale a chicotada, a noite no formigueiro banhada de mel, os joelhos cravados no milho, o coração analfabeto tremendo na mão da palmatória. Vale qualquer coisa para que eu não esqueça que toda dor é válida. Amor é assim. Juntando as economias com suor para depois gastá-las em um final de semana caro. Um pequeno prazer. Mas tudo voltará a ser como antes, eu prometo. Dessa vez, com as mãos livres. Não tenho saudade de você. Não, tenho saudades de você.
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤTem algo muito errado acontecendo por aqui.
Garota, a sua cabeça está pior do que o seu quarto. E a essa altura a bagunça do seu quarto se torna até agradável aos olhos de um perfeccionista. Qual o nome dos remédios que você “gosta”? Estou à procura deles, agradeço se me ajudar a encontra-los. Deve ser mais fácil os encontrar na sutil bagunça do seu quarto, desisto de procurar na sua cabeça. É mais bagunça do que alguém pode suportar. Isso está te matando e eu fico me questionando: Só eu vejo isso? Garota, aonde foi que você escondeu seu amor próprio? Peço-lhe um mapa de toda essa bagunça. (Não desisto de você e a sua bagunça vem no pacote) Reflita. Já pensou em arrumar tudo isso aqui? Olha, vejo milhares de pensamentos reprimidos empilhados e eles só estão se acumulando… Devia parar com isso. Não é saudável. Assim como a sua (falta de) alimentação. Quanta teimosia para pouco tamanho.
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤSente-se ao meu lado, precisamos conversar um pouco.
Essa bagunça toda tem te feito tão mal. O míope da história sou eu, então faça a ti um favor: Olhe para dentro de si. Se for capaz de enxergar essa bagunça da qual tanto falo, me responda o motivo de não ter colocado as coisas no lugar. Não me diga que é preguiça, essa desculpa só serve para o seu quarto de menininha. A ausência de bagunça (em minha cabeça) impede que os meus pensamentos sejam reprimidos, então lhe peço (sinceras) desculpas pela falta de jeito. Incomoda-me ficar te olhando enquanto agoniza sozinha, penso que ninguém deveria morrer sozinho, mas seu caso é diferente. Trata-se de suicídio. Perdoe-me a indelicadeza da pergunta, mas não posso evitar. É prazeroso se matar? Dói? As cicatrizes (quase) invisíveis em seus braços doeram. Não ouse negar. Contaram-me que os remédios não causam dor. Qual será seu método? (Preciso descobri-lo antes que você faça alguma besteira). Seria ousado dizer que o amor é como os remédios? Foda-se, o farei. O amor não dói e se você pensa o contrário, torno-lhe a dizer que tem algo muito errado acontecendo.
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤNão posso dar passos por você e se pudesse não o faria.
Garota, já passou da hora de você começar a agir como mulher. Cansei de dizer que você está longe de ser uma (insana) garotinha. Só temos um problema. Você terá que organizar toda essa bagunça para reencontra-la. Levante-se. Agora. Pegue esses pensamentos (não utilizados) e os jogue fora, não precisa mais deles. Você já não precisa de tantas coisas. Não se esqueça de que novos pensamentos não poderão mais ser reprimidos, isso é uma ordem. Não se apresse em organizar tudo em um ou dois dias, irá levar um tempo. Quanto a mim? Ficarei aqui, meus olhos estão atentos aos seus atos. Cuidado com eles. Última coisa. Quando terminar de arrumar tudo venha (mais uma vez) até mim. Tenho Froot Loops e algumas coisas para dizer, adianto-lhe três palavras: Eu amo você.
ㅤㅤㅤㅤㅤEi, lembre-se que seu quarto ainda está uma bagunça, mas ele pode esperar. [losif]
Mais um trago de teus sonhos. Ouça o crepitar. Sinta-os queimar e preste muita atenção, porque eu não os devolverei. Mais um trago, de teu ódio. Sinta o teu pedido de clemência dissipando-se em meus lábios. Deslizando pela minha garganta e desfazendo-se em cinzas. Mais um trago, das tuas mentiras. Agridoces, cítricas. Mantendo-me vivo. Sussurrando indecências ao pé do meu ouvido, decifrando a malícia dos meus sorrisos. Mais um trago, pelo perdão. Mais um trago, ao amor que não existe. Um brinde à luxúria, e mais um trago por piedade. [losif]
Há dias que eu não existo, nem pra mim mesmo, muito menos para os outros. Mas para os outros, além de me importar pouco, é meio raro que eu exista de fato. Pensar em quem sou seria como ponderar sobre quem é o mar, quem é o fogo, quem é a lua. Assim, constantemente, sem chegar a uma resposta objetiva e certa. Não sei quem sou e se o soubesse: esconderia esse segredo. Não tente descobrir-me, ser um mistério é deveras mais interessante. Portanto, caso saiba de algo: diga algo que eu realmente não sei. E digo-lhe assim, amigo, quase descuidadamente, que eu sou meio pássaro ou estrela, mas sou algo bem próximo das nuvens. Sem receios, limites e freios. Se arriscando sempre, a caminhar por estradas em construções, sentindo a trepidação a cada passada. Perdendo-me na sinuosidade das curvas. Não sonhando, pois não dá para se disfarçar e vestir-se um traje de inverdades diante de um sonho. Por isso, não quero me revelar através das nuanças dos delírios sem nexo, tendo uma radiografia implacável das minhas partes internas, em que cada mancha, mesmo após mil lavagens, pode ser detectada, gritante, no lençol que encobre as minhas verdades. Desculpe, mas estou com uma vontade meio insana de desintegrar-se e recriar-se. Até uma outra hora, num outro tempo. Amanhã, talvez. [losif]